quinta-feira, 14 de maio de 2009

A infecção humana

A auto-identidade é no fim das contas um sintoma de invasão parasítica, a expressão dentro de mim de forças que originam-se no meu exterior. A linguagem é para o cérebro o que a tênia é para os intestinos. Não só isso: pode ser possível encontrar um espaço digestivo livre da infecção parasítica, mas jamais encontraremos um espaço mental que não esteja contaminado [pela linguagem]. Espirais de DNA alienígena distendem-se dentro de nossos cérebros da mesma forma que as tênias estendem-se ao longo de nossos intestinos. Não apenas a linguagem, mas a qualidade completa da consciência humana, como expressa em homens e mulheres, é basicamente um mecanismo virótico.

William S. Burroughs, Cities of the Red Night (1981)

Quero compartilhar uma observação que tive durante minha estada aqui. Ocorreu-me quando tentava classificar a espécie de vocês e percebi que não são na verdade mamíferos. Todo mamífero neste planeta desenvolve instintivamente um equilíbrio natural com o ambiente que o cerca, mas não vocês, humanos. Quando se transferem para determinada região o que vocês fazem é multiplicar-se sem cessar até que todo recurso natural seja consumido, e o único meio que têm de sobreviver é alastrando-se para outra região. Há apenas outro organismo neste planeta que segue o mesmo padrão: um vírus. Os seres humanos são uma doença, um câncer neste planeta. Vocês são a praga. Nós somos a cura.

Agente Smith, Matrix (1999)

Infelizmente, diz Lovelock, Gaia está em apuros: acontece de estar infectada por um vírus chamado Homo sapiens. Os seres humanos estão destruindo ecossistemas, exterminando milhares de espécies e desestabilizando os climas. “Tornamo-nos a infecção da terra em algum passado longínquo e indeterminado, mas foi só há 200 anos que teve início a Revolução Industrial: nesse ponto a infecção da Terra tornou-se irreversível”, afirma ele.

Lovelock chama essa doença de poliantroponomia, condição na qual os seres humanos são tão numerosos que acabam fazendo mais mal do que bem. Projetos de energia renovável, a redução das emissões de carbono e a promoção do desenvolvimento sustentável, bem como outras idéias verdes, nada mais são do que a dissimulação de “animais tribais acenando bravamente seus símbolos contra a ameaça de uma força inelutável”.

Robin McKie, em resenha de The Vanishing Face of Gaia (2009), de James L. Lovelock

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Originalmente no sempre lúcido, sempre provocador The Teeming Brain, pilotado por Matt Cardin


Fonte: A Bacia das Almas - onde as idéias não descansam.

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