quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Demo-cracia.

A idéia de que pessoas destreinadas possam com algum grau de acerto compreender a menor coisa que seja sobre a prática da administração civil da máquina de uma civilização economicamente complexa, que envolve os mais intricados problemas de engenharia, é tão grotesca e absurda que apenas o costume cego baseado na tradicional e inefável estupidez do grupo pode levar, concebivelmente, um adulto sóbrio a abraçá-la seriamente neste nosso desiludido ano de 1932.
A democracia – como distinta de oportunidade e bom tratamento universais – é hoje uma falácia e uma impossibilidade tão grandes que qualquer tentativa séria de aplicá-la não deve ser considerada como outra coisa que não gracejo e pilhéria.
Em tempos mais primitivos o cidadão médio era mais ou menos capaz de compreender a natureza dos problemas governamentais ao redor de si – compreender, quer dizer, quais medidas imediatas trariam a longo prazo a realização dos seus desejos, e quais passos práticos seriam, através de uma cadeia relativamente simples de causa e efeito, capazes de garantir a adoção bem-sucedida e a manutenção dessas medidas.
No complexo mundo contemporâneo nenhuma compreensão semelhante é possível. Debaixo do altamente tecnicalizado governo que qualquer grande nação industrial deve ter, o cidadão moderadamente informado e inteligente não possui mais do que uma debilíssima idéia do que representam os mais simples princípios políticos, ao mesmo tempo em que não tem a mais remota chance de apreender o que for dos mais avançados e intrincados problemas de política e administração.
Isso se aplica, além disso, não apenas ao homem simples e não-instruído, mas a todos os leigos e profissionais liberais, quer sejam lavradores ou professores de sânscrito, varredores de rua ou escultores. Que uma pessoa assim mal-informada lance votos que determinem medidas nacionais, ou mesmo imaginar-se que possa conceber o que representa a maior parte dessas medidas, é objeto de incontrolável riso cósmico. Que tais pessoas possam ser eligíveis a cargo administrativo é noção que levaria Tsathoggua e Yog-Shothoth a partirem-se em incontrolável hilaridade.
O governo “pelo voto popular” quer dizer apenas a nomeação de homens dubiamente qualificados por dubiamente autorizadas e raramente competentes agremiações de políticos profissionais que representam interesses ocultos, seguida por uma insolente farsa de persuasão emocional na qual os oradores com as línguas mais falastronas e as frases de efeito mais baratas arrebanham para o seu lado uma maioria numérica de tolos e simplórios cegamente impressionáveis que não tem em sua maioria a mínima idéia do que representa o circo todo.
H. P. Lovecraft, em carta de 7 de novembro de 1932 a Robert E. Howard
Publicado originalmente a 18 de abril de 2006

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O que vale mais?

Esse vídeo é antigo, mas pra quem não viu, veja pois vale a pena.

É possível sentir a tensão no ar.



É, cada um garantiu o seu.

Sem ser politicamente correto.

Acho bom ver alguém que tem um cargo cuja atribuição é representar o povo de seu Estado não sendo só uma voz de concordância com Governos ineficientes, emburrecedores e corruptos.

Começo a repensar a premissa cravada no senso comum: "para estar lá (na política) tem que concordar com as coisas que acontecem lá". Ou qualquer coisa nesse sentido.

Mesmo que um voto contra não vença uma massa comprada, é bom ver alguém que preserva a alma das transações com o erro.

Marcelo Freixo falando sobre a violência e as operações do Governo do Rio nos recentes incidentes na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão:



"eu particularmente não acho que uma sociedade que precisa de muita política rua seja uma sociedade segura"

"não é hora pro Governo tentar fazer propaganda das suas atitudes diferenciando-se de Governos que eles fizeram parte no passado"

PS: Confesso que gostei de ver a repórter ter respostas inesperadas para as perguntas!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Tédio

Poema declamado pelo grande Dublador Isaac Bardavid.

É reconhecível nos primeiros segundos, mas para título de informação, Isaac é o dublador - dentre outros personagens - do Wolverine.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O último preconceito

Num livro publicado na Inglaterra em 1998, o linguista britânico Jarnes Milroy escreveu (pp. 64-65): “Numa época em que a discriminação em termos de raça, cor, religião ou sexo não é publicamente aceitável, o último baluarte da discriminação social explícita continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua“.
Essas palavras me voltaram à lembrança quando li, no Jornal do Brasil do dia 10/11/2002, o seguinte trecho da coluna Coisas de política, assinada pela jornalista Dora Kramer:
Dúvida pertinente: até quando será considerado politicamente correto ignorar que o presidente eleito do Brasil comete crassos e constantes erros de português?
Queira Deus que, em breve, o assunto já possa ser abordado sem provocar grandes traumas, porque, daqui a pouco, será preciso rever os currículos das escolas do ensino básico, a fim de adaptar as lições sobre plural e concordância ao idioma que as crianças ouvem o presidente falar na televisão.
Evidentemente, não era a primeira vez que eu lia esse tipo de afirmação preconceituosa sobre o modo de falar de Luiz Inácio Lula da Silva — todos sabemos que esse foi um dos instrumentos de difamação lançados por seus oponentes nas disputas eleitorais de 1989, 1994 e 1998. O que me chamou a atenção foi a sobrevivência desses argumentos, com a mesma intensidade, mais de uma década depois.
Duas semanas mais tarde, o jornalista Daniel Piza escreveu, no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo (24/11/2002):
Por que não me ufano: Lula, seus companheiros de PT e grande parte da população maltratam o idioma cortando o “s” final das palavras e todas as concordâncias que a lógica sintática pede. Que não seja a morte do plural, em nenhum dos sentidos.
Seria muita ilusão supor que uma vitória como foi a de Lula nas eleições de 2002 bastaria para que o preconceito linguístico desaparecesse de vez da nossa sociedade. Afinal, de todos os conjuntos de superstições infundadas que compõem a cultura brasileira, nenhum é tão resistente, parece, quanto o das ideias preconcebidas que impregnam nosso imaginário a respeito de línguas em geral e, mais especificamente, da língua que falamos.
Simplesmente, o preconceito linguístico não existe. O que existe, de fato, é um profundo e entranhado preconceito social. Se discriminar alguém por ser negro, índio, pobre, nordestino, mulher, deficiente físico, homossexual etc. já começa a ser considerado publicamente inaceitável (o que não significa que essas discriminações tenham deixado de existir) e politicamente incorreto, fazer essa mesma discriminação com base no modo de falar da pessoa é algo que passa com muita naturalidade, e a acusação de “falar tudo errado”, “atropelar a gramática” ou “não saber português” pode ser proferida por gente de todos os espectros ideológicos, desde o conservador mais empedernido até o revolucionário mais radical. Por que será que é assim?
É que a linguagem, de todos os instrumentos de controle e coerção social, talvez seja o mais complexo e sutil, sobretudo depois que, ao menos no mundo ocidental, a religião perdeu sua força de repressão e de controle oficial das atitudes sociais e da vida psicológica mais íntima dos cidadãos. E tudo isso é ainda mais pernicioso porque a língua é parte constitutiva da identidade individual e social de cada ser humano — em boa medida, nós somos a língua que falamos.
Infelizmente, num longo processo histórico, o que passou a ser chamado de língua é uma coisa que é vista como exterior a nós, algo que estaria acima e fora de qualquer indivíduo, externo à própria sociedade: uma espécie de entidade mística sobrenatural, que existe numa dimensão etérea secreta, imperceptível aos nossos sentidos, e à qual só uns poucos iniciados têm acesso. E por acreditar nisso que Daniel Piza pôde escrever que Lula, seus companheiros de PT e grande parte da população “maltratam o idioma”. É como se a língua não pertencesse a cada um de nós, não fizesse parte da nossa própria materialidade física, não estivesse inscrita dentro de nós — por isso ela pode ser “maltratada”, “pisoteada”, “atropelada”: a língua é vista como um Outro.
O dogma da infalibilidade papal virou piada, mas quase ninguém zomba dos dogmas gramaticais (mais velhos que a religião cristã). Por que os rótulos de “certo” e “errado” são abandonados, e até ridicularizados, em outras esferas da vida social, mas permanecem vivos e ativos quando o assunto é língua? Por que ninguém se dá conta de que a nebulosa norma culta é um produto humano e, portanto, imperfeito, falho e suscetível de contestação e reformulação?
Marcos Bagno, em A Norma Oculta: Língua e poder na sociedade brasileira

sábado, 6 de novembro de 2010

Ninguém neste recinto


Ninguém neste recinto, incluindo o seu pastor, acredita na fé cristã. Nenhum de nós daria a outra face. Nenhum de nós venderia tudo que tem e daria aos pobres. Nenhum de nós daria o casaco a um sujeito que tivesse tirado nosso sobretudo. Cada um de nós acumula todo o tesouro que consegue. Não praticamos a religião cristã e não temos qualquer intenção de praticá-la. Logo, não acreditamos nela. Eu portanto me desligo, e aconselho vocês a pararem de mentir e se dispersarem.
Sinclair Lewis, em Elmer Gantry (1927)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Para onde avançamos?

Por causa desse sujeito eu gostaria de morar no Distrito Federal, pela honra de votar nele.



"o debate no máximo discute como avançamos mais rápido, mas não para onde avançamos"

sábado, 2 de outubro de 2010

Um dia antes

Por: MARCELO QUINTELA.



QUANDO VEM, NINGUÉM QUER...

Com uma massa universal liderada pelo Bispo Macedo e pelos caciques assembleianos “fechados” com o PT; restava a opinião do maior líder interdenominacional da atualidade no Brasil: Pastor Silas Malafaia. Agora ele mudou seu voto e “sutilmente” conclamou todos a fazê-lo, ao sugerir que Marina Silva é dissimulada. Votará no Serra http://www.youtube.com/watch?v=f9nkxm4G5LM.

A situação dos evangélicos me penaliza: Passam décadas pedindo a Deus um governante crente, um presidente cristão, um governo Justo; e quando Deus parece ter respondido ás orações, Ele o faz para jogar na cara da cristandade hipócrita que seus apóstolos queriam mesmo era alguma espécie de Saul moderno que, em proteção perpétua à santa igreja evangélica, sempre condenasse os ímpios, e controlasse suas bocas, projetos de leis e órgãos genitais.

Pedem um presidente para conchavos político-religiosos, e Deus manda a Marina (parece brincadeira divina, ironia celestial).
Querem um Sansão Gospel e vem Marina Silva: Acreana (O Acre existe!); filha de cearenses, MULHER, Marina-Morena, frágil, de voz fraca, corpo doente, ex-empregada doméstica, ex-analfabeta, ex-seringueira e, então, Senadora da República, sem NUNCA ter feito da FÉ um trampolim eleitoral! http://www.youtube.com/watch?v=hQIsv4jR2ec

Ah! Assim a gente não quer não...

Alguma coisa boa pode vir do Acre, do Ceará e do coração honesto de uma mulher sem pinturas ou firulas?

“Mas a sabedoria é justificada por suas Obras...”


Marcelo Quintela, um dia antes...
Estação Santos

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A cara do Brasil

FOME DE MARINA
 
Por José Ribamar Bessa Freire*
 
 
 
Há pouco, Caetano Veloso descartou do seu horizonte eleitoral o presidente
Lula da Silva, justificando: "Lula é analfabeto". Por isso, o cantor baiano
aderiu à candidatura da senadora Marina da Silva, que tem diploma
universitário. Agora, vem a roqueira Rita Lee dizendo que nem assim vota em
Marina para presidente, "porque ela tem cara de quem está com fome"

Os Silva não têm saída: se correr o Caetano pega, se ficar a Rita come.

Tais declarações são espantosas, porque foram feitas não por pistoleiros
truculentos, mas por dois artistas refinados, sensíveis e contestadores,
cujas músicas nos embalam e nos ajudam a compreender a aventura da
existência humana.

Num país dominado durante cinco séculos por bacharéis cevados, roliços e
enxudiosos, eles naturalizaram o canudo de papel e a banha como requisitos
indispensáveis ao exercício de governar, para o qual os Silva, por serem
iletrados e subnutridos, estariam despreparados.
 
Caetano Veloso e Rita Lee foram levianos, deselegantes e preconceituosos.
Ofenderam o povo brasileiro, que abriga, afinal, uma multidão de silvas
famélicos e desescolarizados.
 
De um lado, reforçam a ideia burra e cartorial de que o saber só existe se
for sacramentado pela escola e que tal saber é condição sine qua non para o
exercício do poder. De outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem
está com fome carece de qualidades para o exercício da representação
política.

A rainha do rock, debochada, irreverente e crítica, a quem todos admiramos,
dessa vez pisou na bola. Feio."Venenosa! Êh êh êh êh êh!/ Erva venenosa, êh
êh êh êh êh!/ É pior do que cobra cascavel/ O seu veneno é cruel.../ Deus do
céu!/ Como ela é maldosa!".

Nenhum dos dois - nem Caetano, nem Rita - têm tutano para entender esse
Brasil profundo que os silvas representam.

A senadora Marina da Silva tem mesmo cara de quem está com fome? Ou se trata
de um preconceito da roqueira, que só vê desnutrição ali onde nós vemos uma
beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu cabelo amarrado em um coque,
seus vestidos longos e seu inevitável xale? Talvez Rita Lee tenha razão em
ver fome na cara de Marina, mas se trata de uma fome plural, cuja geografia
precisa ser delineada. Se for fome, é fome de quê?
 
O mapa da fome

A primeira fome de Marina é, efetivamente, fome de comida, fome que roeu sua
infância de menina seringueira, quando comeu a macaxeira que o capiroto
ralou. Traz em seu rosto as marcas da pobreza, de uma fome crônica que
 nasceu com ela na colocação de Breu Velho, dentro do Seringal Bagaço, no
 Acre.
 
 Órfã da mãe ainda menina, acordava de madrugada, andava quilômetros para
 cortar seringa, fazia roça, remava, carregava água, pescava e até caçava.
 Três de seus irmãos não aguentaram e acabaram aumentando o alto índice de
 mortalidade infantil.
 
 Com seus 53 quilos atuais, a segunda fome de Marina é dos alimentos que,
 mesmo agora, com salário de senadora, não pode usufruir: carne vermelha,
frutos do mar, lactose, condimentos e uma longa lista de uma rigorosa dieta
 prescrita pelos médicos, em razão de doenças contraídas quando cortava
 seringa no meio da floresta. Aos seis anos, ela teve o sangue contaminado
 por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose.
 
 A fome de conhecimentos é a terceira fome de Marina. Não havia escolas no
 seringal. Ela adquiriu os saberes da floresta através da experiência e do
 mundo mágico da oralidade. Quando contraiu hepatite, aos 16 anos, foi para a
 cidade em busca de tratamento médico e aí mitigou o apetite por novos
 saberes nas aulas do Mobral e no curso de Educação Integrada, onde aprendeu
 a ler e escrever
 
 Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso de
 História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada
 doméstica, lavando roupa, cozinhando, faxinando.
 
 Fome e sede de justiça: essa é sua quarta fome. Para saciá-la, militou nas
 Comunidades Eclesiais de Base, na associação de moradores de seu bairro, no
 movimento estudantil e sindical. Junto com Chico Mendes, fundou a CUT no
 Acre e depois ajudou a construir o PT.
 
 Exerceu dois mandatos de vereadora em Rio Branco, quando devolveu o dinheiro
 das mordomias legais, mas escandalosas, forçando os demais vereadores a
 fazerem o mesmo. Elegeu-se deputada estadual e depois senadora, também por
 dois mandatos, defendendo os índios, os trabalhadores rurais e os povos da
 floresta.
 
 Quem viveu da floresta, não quer que a floresta morra. A cidadania ambiental
 faz parte da sua quinta fome. Ministra do Meio Ambiente, ela criou o Serviço
 Florestal Brasileiro e o Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e
 estimular o manejo florestal.
 
Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias. Reduziu, em três
 anos, o desmatamento da Amazônia de 57%, com a apreensão de um milhão de
 metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700 criminosos ambientais,
 desmonte de mais de 1,5 mil empresas ilegais e inibição de 37 mil
 propriedades de grilagem.
 
 A mesma bala do preconceito disparada contra Marina atingiu também a
 ministra Dilma Rousseff, em quem Rita Lee também não vota porque, "ela tem
 cara de professora de matemática e mete medo". Ah, Rita Lee conseguiu o
 milagre de tornar a ministra Dilma menos antipática! Não usaria essa imagem,
 se tivesse aprendido elevar uma fração a uma potência, em Manaus, com a
 professora Mercedes Ponce de Leão, tão fofinha, ou com a nega Nathércia
 Menezes, tão altaneira.
 
 Deixa ver se eu entendi direito: Marina não serve porque tem cara de fome.
 Dilma, porque mete mais medo que um exército de logaritmos, catetos,
 hipotenusas, senos e co-senos. Serra, todos nós sabemos, tem cara de
 vampiro. Sobra quem?
 
 Se for para votar em quem tem cara de quem comeu (e gostou), vamos
 ressuscitar, então, Paulo Salim Maluf ou Collor de Mello, que exalam saúde
 por todos os dentes. Ou o Sarney, untuoso, com sua cara de ratazana
 bigoduda. Por que não chamar o José Roberto Arruda, dono de um apetite voraz
 e de cuecões multi-bolsos? Como diriam os franceses, "il péte de santé".
 
 O banqueiro Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara de quem
 se alimenta bem. Essa é a elite bem nutrida do Brasil...
 
 Rita Lee não se enganou: Marina tem a cara de fome do Brasil, mas isso não é
 motivo para deixar de votar nela, porque essa é também a cara da
 resistência, da luta da inteligência contra a brutalidade, do milagre da
 sobrevivência, o que lhe dá autoridade e a credencia para o exercício de
 liderança em nosso país.
 
 Marina Silva, a cara da fome? Esse é um argumento convincente para votar
 nela. Se eu tinha alguma dúvida, Rita Lee me convenceu definitivamente.
 
 
 
 (*) Professor, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ) e
 pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A traição pela tecnologia



"Uma das ilusões que tentaram desenvolver no homem moderno foi fazê-lo acreditar que a tecnologia o tornaria mais livre"

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

nova-mente

faz tempo
e o vento tentou secar
vento quente esse que veio
soprou nos cantos e do meio

violento e sádico
me encarou lento e esporádico
só vi a poeira levantar
só senti a terra me beijar

de onde ouvia amores
vieram as pedras e dores
me tratou amargo como banido
e então tudo se fez zunido

e por uma semana surdei
desolado, encolhia de sequidão
e quase me joguei
como fruto limite da solidão

mas o tempo não perdoa
imparcial, me esqueço à toa
tirou o sol fustigante
trouxe o orvalho brilhante

foi sem regra,
também sem pressa
não lhe pedi, nem mereci
fui salvo, quando o ouvi

e no acaso, me choquei com seu rosto
que me encheu como o mosto
e me livrei do desgosto

e num relance, só você me inflamava
somente aquela que eu amava
era rainha da pedra e lava

nas noites a sonhar
acordando triste sem te estar
dormindo a te esperar
suportando para te alcançar

me renegando para te poder
sem previsões, sem te pré-saber
não discuto, não te enquadro
falo certo, de seguro brado

tudo isso foi só porque
eu não sei dizer
o que quer dizer
o que quero dizer...

não repare as linhas tortas
as palavras amorfas
nem as rimas sem razão

eu te amo sem preparo
porque te quero sem embargo
só você carrego em meu coração.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Tudo é muita vaidade.

Sim, faz muito tempo. E já tinha dúvidas em voltar a escrever aqui.

Porém o que me tirou da inércia não foi nada de boa índole. Pelo menos não a primeira vista.

Sinto que escrever esta noite foi questão de vida ou morte. Cada dia mais se agrava esses sentimentos dentro de mim por motivos que ainda desconheço pois nem se quer consigo discernir o que está aqui dentro.

Faz pouco mais de um ano e meio que entrei para a faculdade de Direito. E menos tempo faz que comecei a entender antigos e contemporâneos sábios quando dizem que este nosso mundo está impregnado de vaidades. Não posso comparar-me a eles em quantidade de conhecimento, muito menos em experiência, entretanto não me privo de me identificar com os mesmos.

Quem está próximo de mim já me ouviu tagarelando pelo menos mais de uma vez sobre minhas "crises" [nomeadas assim por eles] com o Direito, que - agora percebo -  não passam de decepções.

Não, não tive prática jurídica de nenhum tipo para ter aquela confrontação entre a teoria aprendida na faculdade e a realidade cruel, você argumentaria. E eu replico perguntando: e preciso disso para me decepcionar?

Basta estar um pouco inserido nos acontecimentos, na realidade para perceber que o paradoxo, além de grande, complexo, organizado, é bancado por quem detém o poder. Não sejamos inocentes, eles detêm o poder sim. Não há colaboração popular, nosso "poder" está limitado a escolher quem vai mandar em nós. E mesmo que chegemos ao poder, seremos nós com ele e uma maioria sem ele, nos obedecendo.

Mas qual o motivo da minha decepção, do mal-estar que me toma o estômago, das noites de sono difícil e das manhãs em que abrir os olhos era o único esforço que eu gostaria de ter, mas que ao mesmo tempo tive a avassaladora vontade de me ver livre de tudo isso que está a minha volta?

Hoje acredito que uma fagulha de entendimento me veio. Acredito ser um sentimento igual ao de Salomão quando este resolveu escrever sobre a vida, suas observações e avaliações sobre o que observava. E a estas anotações os brasileiros chamaram "O Livro de Eclesiastes", para quem interesse saber.

Porém hoje, creio, a situação está potencializada. As contradições, a futilidade, e acima de tudo a vaidade, tomaram proporções insuportáveis. Insuportáveis. por isso no título, parafraseando a célebre frase do Sábio (vaidade das vaidades, tudo é vaidade), resolvi acentuar a mesma com "tudo é muita vaidade".


Sou só eu, ou você também percebe que todas as contradições estão aí, todos já sabem delas, mas ninguém continua a fazer nada? E acredito que realmente não o podem. Essa parece ser uma vil regra: quem tem um poder-fazer na mão, geralmente não o usa, maquia tudo ou com fazeres não "fazedores" (leia-se política em geral) ou com belos, complicados e enfadonhos sistemas de raciocínio, livros, livros livros e mais livros (leia-se eruditos, doutos em geral) e quem chega a uma condição de poder-fazer, geralmente só lá está por submissão a regra de quem lá já está, e está porque está, de não-fazer. Criam-se leis, teorias são formuladas, tratados assinados, "mentes são abertas", revoluções são instauradas, coisas muito importantes são tão heroicamente feitas... E NADA!


Como Arnaldo Jabor uma vez disse, essa é uma época terrível, nos anos da ditadura militar, por exemplo, lutava-se para que a verdade fosse veiculada, os corruptos denunciados, esquemas deflagrados, etc. ... hoje, isso acontece, e ainda assim, nada continua sendo feito! Antes o problema era que a verdade não era conhecida, hoje, ela foi conhecida [eu sei que não toda, é claro que não toda... cala a boca!] e não adiantou nada! [até porque, o que temos basta.]


Aí me deparo, hoje, cursando um curso superior que é a queridinha de toda a erudição mundial: o direito. Convivendo diariamente com pessoas que [em maior ou menor grau] estão impregnadas, embebidas, enfeitiçadas por vaidade. Não me refiro a vaidade no sentido que geralmente ouvimos, de beleza, embelezamento, mas de vaidade existencial, de futilidade de pensamento, de essência oca. E não se assuste com palavras fortes. São palavras. São pessoas que escrevem um livro, gastam horas e neurônios, perdem noites e mais noites de sono e sexo em prol de produzir um manual que explicará uma gama de instruções para que outros façam o trabalho que eles já faziam, só que agora podendo pensar em mudar um detalhe de seu procedimento de trabalho burocrático do dia-a-dia. Coisas como parar de chamar Executivo, Legislativo e Judiciário de "poderes" do Estado para chamar de "funções" do Estado. Ou acrescentar ou suprimir um princípio ao Direito Administrativo. Ou até acrescentar um direito à Constituição, e nesse ponto, só pra esclarecer quem pense que isso é algo importante, ninguém que tenha o "poder-fazer" fará ou deixará de fazer algo por este algo estar na Constituição. E também não é totalmente importante pensar em meios para assegurar garantias à Constituição, pois no final, só respeita uma lei quem tem consciência de que aquela lei deve ser cumprida. E isso, lei alguma criará [a consciência]. 


E a vaidade toda disso tudo que falei consiste no fato de que essas pessoas realmente acreditam e proclamam que estão contribuindo para a melhora da sociedade global. E além disso, se portam e exigem um tratamento como se realmente isso estivessem fazendo. E pior ainda: (quase) todo mundo acredita!


E esse é o ciclo de coisas fúteis, que chamam de mundo, onde eu vivo. E vou vivendo. Aqui, onde as coisas não vão mudar e ainda vão piorar. Onde quem tem um poder de influência maior, e quem influencia influenciadores, os eruditos, os "chefões" não produzem nada, nada além de morte. Morte. Anti-vida. É o que sinto ouvindo tanta vaidade: morte. Mal-estar.


Bem, não sei como terminar. Não tenho saída pra isso, nem pra mim. Porque para isso não há salvação. Ou há a renúncia de toda essa futilidade, de toda esta merda, ou o prosseguir morrendo.


E nele estava a vida, e a vida é a luz dos homens, e nós o rejeitamos. Parafraseando João 1.4-12

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Os Pedaços de Carne, Três Meninos Gordinhos, Os Sistemas, e o Reino de Deus.

texto postado em 08/06/10
Ainda estou com o gosto de café na boca. Epifania tem gosto de sensatez.

Entendi coisas que com certeza não serão transmitidas a quem estiver me lendo. Nem eu mesmo alcancei tudo o que agora pouco percebi. Mas de fato, as coisas mais complexas com as quais nos deparamos a níveis mundiais e históricos, para mentes simples e atentas, são reveladas no cotidiano.

Aqui em casa há, geralmente um clima agradável. Quem nos conhece e freqüenta nossa casa sabe que não fingimos risos e brincadeiras. Nem quando elas enchem o saco. Enfim, apesar da habitualidade de um clima leve, há certas coisas que tiram todos do sério. Uma delas é na hora das refeições em que há necessidade de repartição. Claro, ninguém vê problemas em dividir arroz, feijão, macarrão às vezes, mas sempre há uma tensão na hora de dividir as carnes. Não é raro ouvir no almoço "quantos pedaços são para cada um?". E de um tempo pra cá isso tem me irritado.

"Para de perguntar isso! Pega o que você acha que deve! Caramba, que mania!". Não raro tenho proferido essa frase em meio aos almoços. Porém dá para entender a mania. Relembrando rapidamente de alguns domingos, quando todos nós almoçamos juntos, e quando geralmente o almoço é comprado, e na hora de dividir as marmitas, como têm-se direito a duas carnes por marmita e não pegamos uma para cada, no fim há oito pedaços carnes para pessoas. E o que era feito? meu pai pegava todas as carnes, separava num prato e dizia: "agora vamos dividir".

É óbvio. O Socialismo foi implantado. Ninguém foi consultado para a divisão. Tudo bem, é um Socialismo bem camarada (sem trocadilho) por que a gente podia escolher a carne que a gente quisesse. O que se pensou foi, inclusive lógico: se deixarmos esses meninos decidirem o quanto querem pegar, não vai sobrar nada pra ninguém. E sobre essa bandeira vivemos desde a mais tenra idade, quando ficou evidente nossa afeição pelos bifes e afins. É para o nosso próprio bem, temos que aprender a dividir, isso vai ajudar a quebrar o egoísmo de vocês, justificavam, inaudíveis, nossos preocupados pais hobesianos.

Contudo nenhuma vigilância é capaz de deter um humano impelido à clandestinidade. Podem nos filmar, nos gravar, implantar chips. Haverá gandíssimo progresso. Mas o sistema só é gigantesco, não é onipresente nem onipotente. Digo isso pois hoje, um de meus irmãos ao se preparar para sair, quando me viu chegando com um saco de pães e mortadela, comemorou. Quando virei-me para a pia a procurar as coisas para fazer café, o vi subindo as escadas com um pão com mortadela já preparado e semi-ingerido.

Quando acabei de fazer o café ele já tinha comido outros dois. Conclusão, ele comeu demais, e alguém ficará sem comer o que seria justo.

Eis aí a síntese do fundamento propulsor de nosso atual e [quiçá] decadente sistema Capitalista. Para que os ricos existam, é preciso haver pobres. Para que alguém tenha muito, muitos não terão o suficiente. A cada rico [que hoje engloba grande parte da chamada "classe média"]. Fatalismo? Pessimismo? Sensacionalismo? Não! Lógica! Porquê lógica? porque como os pães que trouxe do mercado não cresceram depois de meu irmão comê-los, os recursos de nosso planeta também não crescem. A riqueza do mundo, o mundo em si é esse e não há outro, os recursos não são renováveis. O único jeito de todos terem o que é seu é cada um dispor somente do que é seu. E isso não por temor à tutela de um Estado qualquer. Pois o temor é menos forte que o querer.

Então, haverá saída?

Hoje percebi que sim.

Ao falar sobre o Reino de Deus, Jesus disse que "Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós". Qualquer sistema, forma de governo, modelo econômico que posso ser criado, seguido ou imposto, será bom e ruim, não será de todo seguido, e definitivamente não atenderá os problemas da humanidade. E isso por um fato simples, todo sistema é externo. E é exatamente aí que se difere diametralmente tudo que há neste mundo, em qualquer era, com o que nos foi revelado pelo Filho. O Reino de Deus nasce dentro do homens. Nesse Reino nenhum pedaço de carne será comido a mais nem a menos. Não haverão ricos ou pobres. Ninguém precisará ser o repartidor das marmitas. E ninguém se submeterá por medo, tão somente seremos movidos pelo amor, aperfeiçoado.

Amém.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Legião me salvou!

Já caia pesada aquela tarde quando André bateu em minha porta. Ao entrar, eu, como sempre, fico meio sem-graça, oferecendo um pão aqui, um café ali, sabendo que não era bem por isso que ele viera. E até que tem vindo muito. E entre conversas, confissões e gargalhadas, nossa amizade tem sido construída.

Ele ajeita a cabeleira indiscreta, eu deixo na sala um chorinho tocando alto. Chegando a varanda onde já tínhamos conversado um tanto, comento sobre a música alta: "ah, eles põe o funk deles alto pra caramba, porque eu não posso botar uma música boa alta?" indagava eu, numa lógica não muito politicamente-moralmente-correta. Mas não deixa de ser uma coisa interessante o porquê você provavelente nunca verá passar um carro tocando a plenos amplificadores: "Eu sei que vou te amar.. por toda minha vida eu vou te amar". Enquanto músicas de baixa qualidade sempre aparecem pra nós nos mais altos e incômodos volumes. - Eu ouvi dizer que, se chega a certa altura, você pára de perceber certas nuances da música. - Disse André.- Realmente, não há nuance alguma para ser percebida nesses funks da vida.
Tenho descoberto um novo tipo de talento para música: o talento para ouvir música. André está aprendendo música comigo. Mas é difícil encontrar um músico como ele. André tem um instrumento pouco popular, mas indispensabilíssimo: o ouvido. Há quem diga que o instrumento mais antigo é a voz. Entretanto, sem o instrumento dominado por André, nossos cantos ou não aconteceriam, ou seriam como os grunhidos tão ouvidos por nós nas rádios populares de hoje. 
- Mas tenho de confessar - disse André - eu já ouvi muita besteira. 
E rindo, me contou que Britney Spears, Beyoncè, e até Creu - É, cara, é uma vergonha, mas eu ouvia isso mesmo! - já passaram por seu mp3.
- Mas depois que eu comecei a ouvir Legião - André é um fã inveterado de Legião Urbana, o que se percebe mesmo no modo de dizer o nome da banda - Minha mente se abriu pra o que era música, e eu não conseguia mais ouvir as outras músicas que eu tinha no mp3. Eu sentia como se eu não pudesse mais ouvir esse tipo de música agora que ouvi Legião.


Nessa hora sorri. Ouvi seu depoimento com a felicidade de quem ouve o choro de um arrependido.


"eu era cego e agora vejo.” (João 9:25)


E o digo sem exageros. Creio, inclusive, que se não passarmos pelo mesmo processo de olhar pra Legião e considerar os funks, as Beyoncès e Cia. um lixo que são, não tendo maiscoragem de continuar ouvindo o que, por obsoleto, se desfaz; se não tivermos esse mesmo sentimento em relação a qualquer área da vida, antes e depois de Cristo, não nosconvertemos à Ele. João disse: "Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele."


E alguém pode achar estranho eu fazer essa comparação citando essas palavras, me referindo a uma banda "do mundo". Mas o mundo que Jesus combateu e denunciou e orou que o Pai nos livrasse (Jo 17) não era, definitivamente, o mundoque as igrejas evangélicas condenam e nos mandam afastar. E como isso daria já outro texto não falarei mais sobre.


Enfim, o testemunho de André marcará presença em minha mente, penso, por muitas épocas. Foi o tipo de coisa que me fez rir por dentro.


E daqui, do alto da minha vassoura, a quem me lê eu digo: Ouça boa música! Livre seus ouvidos da barulheira que se tornou o mercado musical, tanto envangélico quanto não-evangélico, acreditem, não há diferença de podridão qualitativa entre esses dois ramos do mercado, pois, sendo eles ramos, são de uma mesma árvore, e a árvore do mercado, em todas as suas implicações e abrangências, não pode produzir frutos para a vida.